O Jiló da Meritocracia na Educação

A edição dessa semana da Revista Veja apresenta uma solução tranquila e emergente para a educação no país: a meritocracia. Nesses tempos de eleição temos que nos acostumar com a visita desse tema. Educação é algo que interessa de quatro em quatro anos, dependendo do pleito e da instância sob escrutínio. Nesses nossos tempos de Copa Africana a doxa da moda trata da educação em âmbito nacional. Então, de braços dados com aqueles que acreditam em método científico, vamos aos fatos: segundo o ensaísta deve-se projetar para o cenário nacional a meritocracia existente em SP e MG, ou seja, aos bons um aumento, ao resto o acordo coletivo. Veja que acordo coletivo na educação é sinônimo de morte na pobreza, ao que me consta no RJ o salário inicial do professor do estado não é maior do que R$ 600,00. Mas não é problema porque segundo o método meritocrático basta ser "bom" que vai ganhar mais. Como é que se sabe que alguém é "bom"? Testando. Quem? Os alunos. O objetivo é produzir gente melhor, e gente melhor é gente que lê, escreve e resolve operações com alguma complexidade.
Até aqui o ensaio do semanário já estaria ruim, pois oferece ao leitor uma visão tosca da educação com requintes de preconceito. Mas tem mais.
Nosso querido meritocrata considera que o "nível" dos professores que saem das universidades não é adequado (isso daria um bom ensaio). E indica que em sua "vida útil um único professor atende a 1000 alunos". Por extensão, essa informação derruba qualquer possibilidade de acreditarmos nas outras linhas. Senão vejamos, e muito por baixo. Uma professora, que trabalhe no Estado do RJ, e que tenha duas matrículas (com seis turmas por matrícula), tendo no máximo 30 alunos por turma (o que seria um milagre na educação carioca) atenderia, em uma "vida útil" de 30 anos, somente com essas duas atividades, a 30(alunos/turma/matrícula/ano)x2(matrículas)x6(turmas)x30(anos)=10800 alunos por "vida útil". E meus caros amigos uma conta muito por baixo, pois professor não tinha que se aposentar somente por ano de trabalho mas também por tempo em sala de aula, aquilo que chegasse primeiro (que nem garantia de carro zero).
Enfim, só dá para ficar muito chateado com esse ensaio, tem outros petardos, mas vamos descontar já que deve ser alguém que não é "bom". Atenção VEJA, esse não merece aumento.
Estamos falando da VEJA de 3 de Março de 2010, p. 106.

Comentários

  1. Excelente, Baise. Botou a Veja ainda mais no chinelo! Arrasou, Jiló! =)
    Beijos, Carol

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